Em algum momento da vida você já deve ter se deparado com as siglas “HIV” e “aids”. Pode ter sido em alguma aula de Ciências, em matérias jornalísticas ou até mesmo em filmes ou séries. Sabemos que o HIV é um vírus, que pode ser transmitido pela troca de fluídos corporais (sêmem, sangue etc.). E sabemos que a aids (que não é sinônimo de HIV) é um conjunto de doenças que pode afetar pessoas vivendo com o vírus, deixando o sistema imunológico fragilizado. Isso ocorre quando a pessoa vivendo com HIV não realiza o tratamento antirretroviral, seja por causa de um diagnóstico tardio, seja por questões sociais, como a oportunidades de acessos, a classe social, a raça/cor, o gênero e a promoção de políticas públicas.

Ok. Sabemos da existência do HIV e da aids. Desde o seu surgimento, lá na década de 1980, até os dias atuais, o assunto continua sendo urgente e importante. Mas por que ainda precisamos falar sobre HIV/aids?

Quando pouco se sabe sobre alguma coisa, é fácil para que fantasias invadam nossas mentes e infectem nossos sentimentos e sensações. Fantasias, essas, que nem sempre condizem com a realidade. Sim, em algum momento da vida tivemos contato com o tema do HIV/aids. Por exemplo: se você já assistiu a série Pose, já se deparou com as vivências das personagens Blanca Evangelista e Pray Tell, que vivem com HIV na década de 1990, período marcado por altos índices de morte e infecções.

Mas, cá entre nós, não é um assunto tão discutido assim. Quantas vezes esse assunto já surgiu na sua roda de amizades, na escola ou até mesmo em casa com a família? Falar sobre sexo e sexualidade ainda é um tabu em nossa sociedade. Infelizmente. Apesar disso, existem possibilidades de mudar este cenário e ampliar nossos repertórios para falar sobre esses assuntos.

Primeiramente, é preciso reconhecer que o sexo e a sexualidade atravessam a vida das pessoas, assim como atravessam o gênero, a cor da pele, a classe social e econômica, a região ou bairro em que mora, dentre outras questões. Quando reconhecemos a importância do sexo e da sexualidade em nossas vidas, mais são dissolvidos os tabus que cercam o assunto. Sabe quando você abre todas as janelas da casa para deixar circular o ar? É bem parecido.

É muito possível que, em algum momento da vida, entremos nesse universo gostoso chamado “sexo”. E para entrar nesse universo com segurança, sem deixar os medos fantasiosos dominarem a gente, é muito importante ter uma bagagem repleta de informações. Quanto mais informações você tiver, menos fantasias habitarão a sua mente. E mais prazerosas e responsáveis serão suas experiências sexuais. Entrar em contato com informações sobre HIV/aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (as IST’s) é como arejar as nossas mentes, é um suspiro de alívio diante de todas as pressões e tensões que são colocadas sobre as possibilidades de experimentar os prazeres da vida. Afinal, vivemos e merecemos viver de formas leves e prazerosas, sem deixar de lado nossas responsabilidades diante de todos os desafios que surgem no percurso.

Em 2020, o município de São Paulo teve 2.472 novos casos de HIV (83,8% pertencem ao sexo masculino, e 16,2% ao feminino). Dos casos, 52,1% estão na faixa etária entre 15 e 29 anos. Esses dados, elaborados pela Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, não são apenas números: são vidas marcadas por um vírus que ainda não possui cura. Viver com HIV atualmente não é mais uma “sentença de morte”, como era no surgimento da epidemia. A ciência avançou e contamos com tratamentos antirretrovirais potentes que possibilitam melhor qualidade de vida, além de métodos de prevenção como a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) e a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Mas o estigma e o preconceito ainda são realidades que pouco avançaram com a medicina, pois o preconceito ainda é o vírus que mais infecta os imaginários sociais diante de questões como sexualidade, gênero, raça/cor, classe social e outros elementos que formam as nossas identidades.

Falar sobre HIV/aids, da forma mais aberta possível, é abrir as janelas de uma sociedade marcada pela intolerância e o preconceito. Conseguimos afastar fantasias como “HIV é igual a morte”, “Não preciso me prevenir”, “Não quero me relacionar com pessoas vivendo com HIV”, e outras que geram medo e culpa, quando conhecemos os nossos próprios corpos e desejos com informações pautadas em evidências científicas. Quando percebemos que somos frágeis e vulneráveis a tudo o que existe no mundo. Quando reconhecemos a nossa humanidade e a das outras pessoas também.

A sexualidade é vivida de maneiras diferentes, porque as pessoas são diferentes e têm desejos diversos. Há muitos modos de ser, de viver e de estar no mundo. Conhecer a nossa subjetividade é um caminho importante para conhecer o nosso corpo. O que te dá prazer? Como, onde, quando e com quem? Ao abrir as janelas da mente, mais próximo você estará de perceber o seu corpo, mente e sentimentos; e mais próximo estará de construir de forma responsável caminhos para aproveitar ao máximo os seus desejos, sem medo e nem culpa.

Ainda precisamos falar sobre HIV/aids porque o sexo e a sexualidade estão em nossas vidas, de uma maneira ou de outra. E como mostram os dados epidemiológicos do município de São Paulo, o HIV e as outras infecções sexualmente transmissíveis também são uma realidade. Precisamos refletir e conversar mais sobre os nossos desejos e vulnerabilidades. Com informações baseadas em fatos, e não em fantasias, é possível encontrar caminhos para que você possa vivenciar a sua sexualidade de modo seguro. Dessa forma, mais próximo você estará de entrar em contato com um tipo de prevenção que melhor se encaixa em sua vida. É sobre o que vamos falar em nosso próximo texto: prevenção não é só camisinha, sabia?


O projeto Indetectável: deuses morrem porque se renovam foi realizado com apoio do EDITAL DOS COLETIVOS – 1ª EDIÇÃO, da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.

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