É comum a relação do HIV/aids com o universo biomédico. Diante das siglas “HIV” e “aids”, ativamos mentalmente uma série de elementos como “sangue”, “preservativo”, “seringas”, “teste sorológico”, “hospital”, “vírus”, “doença” etc. O fato de o HIV ser um vírus, e a aids ser um conjunto de doenças, faz com que o universo biomédico e seus elementos sejam os mais imediatamente acionados. Mas pensar e falar sobre o HIV/aids não é apenas habitar a área da medicina. E a arte pode contribuir muito na ampliação dessas reflexões, sabia?

A arte é expressão humana. Pela arte é possível reproduzir questões profundamente complexas, como as dinâmicas culturais, políticas e religiosas de uma sociedade, ou sentimentos humanos e universais como o amor, o medo, a angústia, a tristeza e a felicidade. A arte existe há muito, muito tempo, e vem mostrando que é um caminho importante para humanizar as pessoas. A arte humaniza, pois faz com que o ser humano exerça a sua capacidade de imaginação e criação. Nos sentimos com mais vida e em conexão com o mundo quando ouvimos uma música, lemos um livro, quando assistimos um filme ou uma peça de teatro, e por aí vai. Imagine viver em um mundo sem canções, poemas ou danças? Certamente seria um mundo bem mais infeliz.

Agora imagine uma pessoa que tem a sua humanidade deslegitimada. Na história da humanidade há muitos episódios que demonstram isso: o genocídio dos povos indígenas promovido pela colonização europeia, a escravização de diversos povos africanos, o extermínio de judeus durante o nazismo… A lista é lamentavelmente longa. Deslegitimar a humanidade de alguém é desprezar sua vida por completo. E inúmeras obras artísticas já retrataram o genocídio, a escravidão e o nazismo, buscando não apenas criticá-los, mas também humanizar todas as pessoas marcadas pelo ódio e a violência nesses tristes momentos da história.

E há muitas formas de desumanizar alguém: o racismo, o machismo e a LGBTfobia são apenas alguns exemplos. O preconceito e a discriminação são maneiras de deslegitimar a humanidade de uma pessoa, assim como a sorofobia. Você já ouviu falar desse termo? A sorofobia é caracterizada como o preconceito, o medo ou a discriminação contra as pessoas que vivem com HIV ou aids. Esses sentimentos tão ruins surgem com o estigma social que cerca o assunto, existente desde o surgimento da epidemia de HIV/aids na década de 1980. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que 64,1% das pessoas que vivem com HIV/aids no Brasil já sofreram algum tipo de discriminação – comentários negativos, assédio moral, desemprego, exclusão e até mesmo agressões físicas formam esse cenário da sorofobia no país.

A arte pode nos ajudar a superar a sorofobia através de sua capacidade de humanizar e de oferecer à sociedade histórias que geralmente são esquecidas. As variadas linguagens artísticas, cada qual com suas técnicas e especialidades, permitem que nós entremos em contato com narrativas e imagens, por vezes, distanciadas dos discursos mais comuns e preconceituosos sobre o HIV/aids e as pessoas que vivem essa condição de saúde. Essas ações artísticas são elaboradas por uma diversidade de artistas, que podem ou não viver com HIV/aids.

Mas artistas que vivem com HIV/aids estão sendo as pessoas que mais abordam essa pauta em seus trabalhos, trazendo suas experiências de vida e de mundo, e compartilhando com a sociedade novos olhares sobre o que é viver com HIV atualmente, período marcado por importantes avanços científicos. Como refletimos em outro artigo, hoje em dia o Brasil possui terapias antirretrovirais para o HIV muito potentes e que possibilitam melhor qualidade de vida. Pessoas que vivem com HIV, em tratamento regular e indetectável a mais de seis meses tornam-se indetectáveis e intransmissíveis, portanto, não transmitem o vírus.

A lista de pessoas que atualmente trabalham artisticamente o tema do HIV/aids é enorme, e quase impossível de ser totalmente contemplada em um breve artigo. Mas queremos deixar alguns nomes para você conhecer e seguir: o Coletivo Loka de Efavirenz, o performer Vinícius Couto, o Coletivo Amem, a atriz Xan Marçall, os poetas Ramon Nunes Mello, Marina Vergueiro e Fernando Impagliazzo, a cantora e compositora Maria Sil, o ator e dramaturgo Ronaldo Serruya, o ator e performer Kako Arancibia, o ator, dançarino e performer Franco Fonseca, a artista visual Micaela Cyrino, e os escritores Beto Volpe e Thais Renovatto. Todas essas pessoas, e outras que aqui não foram citadas, percorrem caminhos diversos para promover reflexões sobre o HIV/aids, seja na literatura, no teatro, na música ou na dança. Todas essas pessoas buscam humanizar um tema ainda tão cercado de tabus. Por isso o trabalho de cada uma delas é fundamental para superar a sorofobia.

Falar sobre HIV/aids não é apenas falar sobre a área médica. É também um assunto elaborado estética e discursivamente pelos artistas, que permite o acesso a áreas pouco exploradas nesse assunto, oferecendo novos olhares sobre a vivência com HIV/aids e humanizando as pessoas mais afetadas pelo estigma. A literatura, a música, a dança, o teatro, o cinema, a performance, dentre outras expressões artísticas, contribuem para ampliar a nossa visão sobre o corpo, a sexualidade e a sociedade de modo geral. Se o lugar-comum do HIV/aids é o preconceito e a discriminação, pode ter certeza que a arte nem sempre vai por esse caminho. Ela nos leva a um lugar necessário: o contato com o outro e com nós mesmos.


O projeto Indetectável: deuses morrem porque se renovam foi realizado com apoio do EDITAL DOS COLETIVOS – 1ª EDIÇÃO, da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.

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