Xan Marçall é natural de Mairi do Pará, atriz, performer, ilustradora e ativista trans. Atua como mediadora de debates sobre HIV/aids, além de trabalhar como professora de teatro com crianças e adolescentes no ensino formal e informal. Seu trabalho artístico aprofunda as noções de “imagem” e “imaginários” a partir das ancestralidades Kaabokas na Amazônia paraense e da transancestralidade na América Latina.

Xan tem recentemente trabalhado com cinema. “Iauaraete” é seu filme de estreia e tem circulado em diversos festivais nacionais e internacionais. Também estreou o longa-metragem “Sob a Terra do Encoberto” em parceria com a artista Libra no Schwules Museum Berlin, junto à exposição “Encantadas Transcendental Brazilian Art”, com curadoria de Ué Prazeres, Sanni Est e Transälien. Em Leipzig, na Alemanha, participou da exposição fotográfica intitulada “Intimate Environments”, do artista Jul Zureck, e ainda de trabalhos com o grupo de teatro POLYMORA Inc.

Em entrevista exclusiva para o Coletivo Contágio, a artista amazônida toca em questões importantes como o estigma sobre as pessoas que vivem com HIV/aids e como essa pauta tem atravessado as suas produções artísticas, além de destacar a urgência da cura do vírus.

As desigualdades regionais e a importância da cura

Desde que descobriu o diagnóstico positivo para o HIV, Xan Marçall tem se questionado sobre a desigualdade de políticas públicas no Brasil. Ela percebeu uma escassez em debates sobre HIV/aids e dificuldades de acesso à educação, à cultura e à saúde no Norte e Nordeste do país, reconhecendo que, em grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, havia maiores possibilidades de acesso a outros métodos de prevenção que não apenas a camisinha, de maior circulação de informações sobre Indetectável = Intransmissível e de outros assuntos que pouco haviam sido compartilhados em rodas de bate-papo no Pará e na Bahia, entre 2009 a 2015.

Ao receber o diagnóstico positivo para o HIV, Xan passou a entrar em contato com grupos artísticos e ativistas como o Coletivo Contágio e a Loka de Efavirenz. “Vi que, mesmo estando sozinha na Bahia e no Pará, eu convergia com muitas coisas que muita gente falava fora destes territórios. Pensei: ‘sou artista, professora, e as pessoas precisam saber disso e precisam falar sobre isso’”, relata a artista.

Para a artista, é importante falar sobre a indetectabilidade do vírus para que a população possa desestigmatizar o HIV e compreender que as pessoas vivendo com o vírus podem plenamente viver as suas vidas subjetivas, emocionais e sexuais. “Falar sobre indetectabilidade é possibilitar, para nós que vivemos e para os outros, a informação de que existem outros métodos de prevenção e cuidado”, aponta a artista. “Importa para gerenciarmos de maneira um pouco mais autônoma nossas vidas e nossas práticas sexuais.”

Além da necessidade e importância da ampliação sobre informações acerca do Indetectável = Intransmissível, Xan Marçall acredita que todo o debate sobre HIV/aids deve ter como horizonte a cura do vírus. “Para mim, existe a desconstrução da discriminação se discutirmos não só os métodos preventivos, mas também insistirmos pela cura”, comenta.

E completa a artista: “Precisamos falar mais sobre a importância da cura. Afinal, podemos pensar que, em comunidades de muitos interiores do Brasil, as pessoas sequer tomam o medicamento porque esse estigma de corpos doentes é tão grande que elas mesmas têm vergonha de fazer acompanhamento. Então o problema social está para além do uso contínuo dos antirretrovirais. A gente precisa de Cura.”

A arte e os caminhos possíveis para olhar o HIV

Xan Marçall começou a fazer seus trabalhos com o apoio do Coletivo Das Liliths, da Bahia. Por meio do seu corpo, a artista passou a falar de maneira sensível e honesta sobre HIV/aids, temática que, de um modo ou de outro, está sempre presente em sua escrita, em seus filmes e peças teatrais.

“Foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Porque me senti tão livre, tão forte e tão necessária. Era preciso falar”, afirma Xan Marçall. “Falar sobre o assunto foi fundamental para que eu não entrasse no armário e criasse um medo pavoroso em torno disso.”

A artista contou ao Coletivo Contágio, em entrevista, sobre como a arte pode contribuir para a ampliação de discussões sobre HIV/aids na sociedade, e como as expressões artísticas e culturais são caminhos possíveis para repensar a vida e promover novos olhares sobre a nossa realidade.

“Eu tô fazendo mestrado em Antropologia e tenho percebido que toda produção de conhecimento passa por debates biológicos e culturais. Um debate complexo de movimentos muitas vezes antagônicos. Fazer Antropologia tem me mostrado de maneira mais potente como a cultura é poderosíssima para vivermos em coletividade, projetarmos vidas, sonharmos, elaborarmos novos projetos de vida. Arte e cultura são também maneiras de pensar a humanidade. E digo mais: de imaginar outros caminhos possíveis, porque a arte está muito ligada ao reencantamento do mundo. Eu tenho acreditado nisso e sei que, antes de mim, muitas pessoas já falaram sobre isso. Fazemos arte e concomitantemente produzimos cultura. Nós, por exemplo, artistas e ativistas da nossa geração, temos feito isso. Mirando o futuro e fazendo acontecer no presente, o tempo todo. E não vejo um lugar mais interessante para se pensar e produzir cultura que não seja pela produção do saber artístico. Um saber afetivo, sensível, de possibilidades infinitas para repensar o HIV/aids e tantas outras questões. Muitas de nós temos feito isso, do Sul ao Norte do Brasil. Às vezes timidamente, mas ainda assim fazendo.”


O projeto Indetectável: deuses morrem porque se renovam foi realizado com apoio do EDITAL DOS COLETIVOS – 1ª EDIÇÃO, da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.

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