Artista, educadora e mãe: essa é Priscila Obaci, mulher negra que descobriu viver com HIV em 2017 e que hoje busca dar visibilidade a outras mulheres que vivem a mesma sorologia. Formada em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP), sua arte transita entre o teatro, a dança e a poesia: é integrante do grupo Umoja e autora de Poesias Pós Parto (Oralituras, 2020) e A Calimba e Flauta (Edições Toró, 2012), em coautoria com Allan da Rosa.

Priscila é também professora de Dança Materna, desenvolvendo atividades sensoriais e lúdicas que têm o candomblé como base pedagógica e filosófica, a exemplo do Projeto Xirezinho: Os Bebês e a Natureza. Além disso, é integrante do núcleo Black Babywearing Brasil: Carregar Preto.

Em entrevista exclusiva para o Coletivo Contágio, a artista fala sobre a sua vivência com o HIV, a importância da circulação de informações sobre o Indetectável = Intransmissível, e a potência da arte para humanizar uma pauta ainda cercada por muitos tabus e silêncios. Confira a entrevista:

1) Priscila, quais atravessamentos o HIV teve em sua vida? Em qual momento você refletiu sobre a importância de se falar sobre esse assunto?

O HIV entrou na minha vida quando eu tinha 8 anos de idade. Foi quando minha tia Gabi, recém chegada da Itália, nos contou que estava vivendo com HIV. Era o boom da aids no Brasil, mas a tranquilidade como ela nos contou foi acolhedora para o meu entendimento de criança naquele momento, como era também o fato dela ser travesti: eu só a amava e pronto. Em 1998, ela veio a falecer em decorrência da aids e foi minha primeira experiência com a morte.

Eis que, quase 20 anos depois, em 2017, eu me tornei uma pessoa vivendo com HIV e, por esse histórico da minha tia, eu já acompanhava pessoas que militavam, como a Micaela Cyrino e o Flip Couto. Fui maturando abrir a minha sorologia. Quando me senti segura eu abri e foi a melhor coisa da minha vida, pois tirou o peso da culpa das minhas costas, aquele sentimento moral que a sociedade joga pra gente carregar, sabe? Agora eu sou livre. E é uma forma de também reavivar a memória da minha tia. E conscientizar principalmente mulheres heterossexuais – que hoje é um grupo que só cresce os números – de que é possível seguir, ser mãe, se relacionar, ou seja, viver.

2) Na sua opinião, qual a relevância de falarmos sobre Indetectável = Intransmissível?

É impressionante como parece que só nós que vivemos com HIV sabemos disso. Na vivência e na troca de experiências com amigas vejo o quanto as pessoas são hipócritas, pois transam com uma pessoa aleatória sem proteção, mas têm medo de alguém que assume que vive com HIV e é indetectável. É importante que essa informação circule, que as pessoas matem dentro delas esse preconceito – como diz o Flip, o “vírus social”. No mundo temos ainda países que não têm uma política de saúde efetiva no tratamento ao HIV/aids, mas sabemos que, mesmo em lugares que possuem um acompanhamento amplo, muitas pessoas não aderem, não acham que são dignas de viver após o diagnóstico. O HIV/aids ainda é um tabu na nossa sociedade. Por isso a importância de furar essa bolha e dialogar com a sociedade em geral sobre isso.

3) A questão do HIV perpassa o seu trabalho artístico? Se sim, de que modo?

Por enquanto o HIV só foi retratado na minha poesia, mas pretendo que ele também se relacione com as outras frentes artísticas que eu atuo. Acredito que é um processo de elaboração e amadurecimento em que, aos poucos, vão emergindo poéticas diversas. Fiz também um filme só com pessoas vivendo com HIV, encenando memórias nossas acerca do vírus. Ainda não foi lançado, mas é um trabalho bem bonito.

4) De que forma a arte, e a cultura de modo geral, pode contribuir para a desconstrução dos estigmas que ainda rondam o HIV e outras IST’s?

A arte tem o poder da magia. Ela entra sem pedir licença. Ela vai cavucando lá dentro das pessoas e vai destruindo e construindo sem nem mesmo a pessoa perceber, se dar conta. Porque ela fala direto com a pele, com o coração, com as emoções… Ela é água que entra e vai correndo dentro das pessoas… Com certeza uma grande aliada para derrubar montanhas de estigmas e construir novos olhares para os nossos corpos. Não somos sujas, somos vítimas de uma política de extermínio que entrou pela porta, sem defesa, que é o amor, como diz minha amiga Marina Vergueiro. E a arte tem esse poder de acessar o amor dentro das pessoas.

5) Há quatro décadas o mundo vive e convive com o HIV/aids. Ainda não achamos a cura para o vírus, nem para o estigma e a discriminação. Na sua opinião, o que ainda precisa ser feito para avançarmos nisso?

Eu sou uma mulher preta, então o racismo e o machismo me esmagam todos os dias. Eu luto contra eles, mas sei que eles sempre vão existir, como a sorofobia também. As pessoas têm medo daquele ser que elas acham que pode ser maior que elas. E por isso tentam nos diminuir. Ver uma pessoa que tem um vírus que pode matá-la falando sobre isso, vivendo, sorrindo e produzindo arte, é amedrontador para os covardes. Eles vão continuar existindo e nós também precisamos nos multiplicar e ecoar nossas vozes.

Mesmo em um regime escravocrata, pessoas pretas produziram milhares de manifestações culturais e artísticas. A arte tem o poder de transformar as experiências mais cruéis em poesia e é assim que vamos construir novas possibilidades de convivência.


O projeto Indetectável: deuses morrem porque se renovam foi realizado com apoio do EDITAL DOS COLETIVOS – 1ª EDIÇÃO, da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.

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